sábado, 2 de fevereiro de 2019

FANTASMAS ASSOMBRAM A FAMÍLIA BOLSONARO

Presenças fantasmagóricas assombram a família presidencial. Quantas mais vão surgir?

Por Vinicius Segalla
Lista de funcionários fantasmas empregados pelo clã Bolsonaro
É uma tradição familiar. Contratar funcionários – fazendo uso de verbas públicas – que não aparecem no gabinete parlamentar para cumprir suas funções. Trata-se de uma prática que a família Bolsonaro cultiva há muitos anos. A cada dia que passa, mais um profissional contratado por um Bolsonaro surge nos noticiários, em fantasmagóricas aparições, a assombrar o atual presidente da República.
Chegou-se ao ponto de ser difícil manter a conta de quantos funcionários fantasmas já foram revelados até agora, e em qual dos gabinetes da família cada um foi instalado. Segue, abaixo, uma lista do que se conhece até hoje, dia 25 de janeiro de 2019, data de publicação desta reportagem, sem detrimento dos que eventualmente venham a surgir nos próximos dias, semanas, meses e anos.

1 – Wal do Açaí – Gabinete de Jair Bolsonaro

Walderice Santos da Conceição, 49, compunha a equipe de 14 funcionários do gabinete parlamentar do então deputado federal Jair Bolsonaro até agosto do ano passado. Uma senhora humilde, esposa do caseiro da casa de praia de Jair Bolsonaro no município de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. Nunca nem pisou em Brasília. No horário de expediente na Câmara, dava ponto atrás do balcão da “Wal do Açaí”, sua lojinha de venda do produto.

Primeiro, Bolsonaro disse que Wal era sua consultora na cidade de Angra dos Reis, enviava a seu gabinete as informações sobre as necessidades daquela cidade, para que Jair pudesse propor projetos de lei para ajudar o município.

Mas era mentira, como revelou o jornal Folha de S.Paulo. Descobriu-se que Bolsonaro jamais, em seus quase 30 anos como deputado, jamais criou um só projeto de lei minimamente ligado a Angra dos Reis. Depois, ainda se descobriu que a Wal fazia faxina na casa do Jair, também no horário em que estava empregada lá em Brasília, sendo paga com dinheiro público. Então, ela pediu demissão.

2 – Flávio Bolsonaro – Gabinete de Jair Bolsonaro

A BBC informou: “Entre 2000 e 2002, Flávio Bolsonaro, então com 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes: faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário duas vezes por semana no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília.”

Partindo da hipótese de que o veículo de comunicação que divulgou a notícia, pertencente ao Governo da Grã-Bretanha, não faz parte da imprensa comunista que vive a atacar a família Bolsonaro, apenas uma conclusão é possível: Flávio Bolsonaro foi fantasma de Jair Bolsonaro.

Isso porque, até onde se sabe, Flávio não é onipresente, não poderia ter estado em duas cidades ao mesmo tempo. E, como mostra o órgão de imprensa britânico, são documentos oficiais (declarações do Imposto de Renda, Portal de Transparência da Câmara dos Deputados, Diário Oficial da União e histórico escolar de Flávio) que apontam a presença dupla e simultânea de Flávio Bolsonaro estudanto Direito no Rio e trabalhando com o pai em Brasília.

3 – Tercio Arnaud Tomaz – Gabinete de Carlos Bolsonaro

Ao longo de todo o ano de 2018, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) atestou a presença integral do ex-assessor Tercio Arnaud Tomaz em seu local de trabalho, o gabinete do parlamentar. Salário pago pelo povo carioca: 3.641 reais por mês.

Mas era mentira do Carlos. Conforme mostrou o jornal O Globo, Tomaz era, na realidade, membro da equipe de comunicação e mídias sociais da campanha do então candidato a presidente da República Jair Bolsonaro. E, logo após a eleição, enquanto ainda recebia seus vencimentos às custas do povo do Rio, já passou a se apresentar a jornalistas como assessor de comunicação do Jair. Não fez questão de esconder nada, pelo contrário, passou a divulgar as agendas do presidente eleito, a responder às demandas da imprensa.

Mas o assalto aos cofres públicos cariocas já acabou. Tomaz foi exonerado do cargo, já tem até um novo emprego, conforme publicado no Diário Oficial da União. É agora assessor especial da Presidência da República, nomeado por Jair Messias Bolsonaro, com salário de mais de 13 mil reais por mês.

4 – Wellington Sérvulo Romano da Silva – Gabinete de Flávio Bolsonaro

O Tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Wellington Sérvulo Romano da Silva foi contratado pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj por um ano e meio: de abril de 2015 a setembro de 2016. Durante todo este período, o contribuinte fluminense pagou fiel e integralmente seus vencimentos mensais, de 5.400 reais, fiando-se no que oficialmente atestava Flávio Bolsonaro, de que se tratava de um profissional assíduo no trabalho.

Ocorre, porém, que em 248 dias deste um ano e meio, o tenente-coronel não foi trabalhar, não estava nem no país, mas sim em Portugal, como informou exibindo provas e documentos o Jornal Nacional.

Se serve de consolo ao pagador de impostos do Rio de Janeiro, Romano da Silva não ficou com a totalidade do dinheiro público que não fez por merecer: ele é um dos funcionários que depositou parte de seus vencimentos na conta de Fabrício Queiroz, aquele outro ex-assessor, que teria contratado milicianos para o gabinete de Flávio, sem que o então deputado soubesse, como ele mesmo (Flávio) já explicou.

5 – Nathalia Queiroz – Gabinete de Jair Bolsonaro

Ao longo do ano de 2018, o gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro atestou oficialmente que a ex-assessora parlamentar Nathalia Queiroz cumpriu religiosamente sua carga horária de trabalho no gabinete do agora presidente da República. Pelos serviços prestados, recebeu o salário mensal de 10 mil reais, pagos pelo contribuinte brasileiro.

Jair Bolsonaro informou à Câmara dos Deputados, segundo mostram documentos exibidos pela CBN, que Nathalia não faltou sequer um dia ao trabalho.

Mas era mentira do agora presidente da República. Durante todo o tempo em que o pagador de impostos brasileiro honrou seu compromisso com a funcionária de Bolsonaro, ela estava, na realidade, trabalhando como personal trainer de celebridades no Rio de Janeiro.

A prova da fraude, quem forneceu, foi a própria Nathalia, em dezenas de fotos e postagens que publicou em suas redes sociais, trabalhando como personal, com seus clientes famosos da televisão.

Nathalia é filha de Fabrício Queiroz, aquele ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro, aquele que depositou 40 mil reais na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Tudo em família.

6 – Renato Antônio Bolsonaro – Gabinete de Antonio Prado

Renato Antônio Bolsonaro, irmão do presidente da República, foi exonerado no dia 7 de abril de 2016 do cargo de assessor especial do deputado estadual André do Prado (PR-SP), após se constatar que ele era funcionário fantasma na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), conforme noticiou o Portal R7.

Bolsonaro era remunerado com um salário de R$ 17 mil mensais, pagos pelo povo paulista, mas trabalhava vendendo móveis na cidade de Miracatu, no interior de São Paulo, enquanto deveria estar na Assembleia. Quando a fraude veio à tona, seu irmão mais famoso falou à imprensa sobre o episódio: “Se meu irmão praticou algum crime, problema dele. Ele que se exploda.”

Ele, não você. Tá ok?

terça-feira, 17 de julho de 2018

O FUTURO DE UM PAÍS PASSA PELA EDUCAÇÃO


FILME CURTA DE GUERRILHA


A pluralidade da mídia e a democracia | Luis Felipe Miguel

por Flávia Biroli
Para compreender a crise da ordem política democrática no Brasil é essencial analisar a posição dos meios de comunicação de massa. Não se trata apenas de estudar seu comportamento, claramente enviesado, ao longo do tempo. Trata-se também de entender o lugar que a mídia ocupa no sistema político brasileiro – e como, deste lugar, ela desempenha o papel de obstáculo permanente ao aprofundamento das práticas democráticas.
Em geral, os modelos com os quais a ciência política trabalha ignoram a mídia ou, no máximo, concedem a ela um estatuto secundário. Admite-se que o funcionamento do regime democrático depende do provimento de uma certa quantidade de “informação”, mas há pouca curiosidade para entender como operam os sistemas que produzem esta informação. Aceita-se o valor da “liberdade de expressão” sem indagar com ela se efetiva. Para algumas vertentes da teoria democrática liberal, a disputa política serve de garantia de que o público terá acesso a relatos contraditórios sobre a realidade, uma vez que cada partido ou grupo de interesse tentará divulgar sua própria versão dos fatos para o maior número possível de pessoas. Assim, os cidadãos teriam condições de construir seus próprios julgamentos a partir de uma pluralidade de pontos de vista (é o que diz Anthony Downs). Para outras, a concorrência mercantil entre os meios de comunicação gera um sistema “autocontrolado”, no qual todos terão incentivos para disponibilizar a informação mais verdadeira e serão punidos, pelos próprios mecanismos de mercado, caso não o façam (como dizia Giovanni Sartori). Mas o desinteresse da ciência política, que considera que a comunicação é um problema desimportante ou que se resolve de maneira automática, contrasta com a preocupação obsessiva que os candidatos à liderança política têm com a gestão de sua visibilidade pública.
O autodiscurso dos próprios meios de comunicação também costuma apresentá-los como externos ao campo político. De maneira geral, o jornalismo – que não é a única, mas é a faceta mais visível da influência da mídia na vida política cotidiana – se coloca como mero reflexo do mundo, um canal neutro pelo qual passam os “fatos” para que o público possa tomar conhecimento deles. Ainda que hoje esteja disseminada a crítica aos ideais canônicos de imparcialidade, neutralidade e objetividade jornalísticas, que primeiranistas de Comunicação já reconhecem como inatingíveis e enganadores, eles continuam centrais na produção da legitimidade da mídia diante do público. Em relação ao sistema político, o discurso ostensivo do jornalismo é a posição de cão de guarda, desvelando as ações dos funcionários do Estado e permitindo que a cidadania os julgue. De acordo com a expressão convencional, ele seria o “quarto poder”, cuja função é controlar os outros três – o que converge com a outra metáfora, já que a forma específica deste controle é dar publicidade aos atos dos governantes, de maneira que o público esteja capacitado a fornecer seu veredito. O jornalismo seria o principal mecanismo para permitir a accountability do sistema político.
Essa narrativa é mítica. A imparcialidade é inacessível, mesmo que seja buscada com sinceridade, uma vez que todos nós vemos o mundo a partir de uma determinada perspectiva – vinculada à nossa posição social, à nossa trajetória e aos interesses aos quais estamos ligados. No momento em que define quais são os fatos que serão noticiados e qual o destaque que cada um receberá, o jornalismo aplica critérios de seleção e de hierarquização que estão longe de ser objetivos (como queria a teoria dos valores-notícia, hoje desacreditada). Mas esses critérios passam a transitar socialmente como universais exatamente porque ganham a visibilidade concedida pela mídia. Quando o jornalismo transforma um fato em notícia, faz com que ele receba atenção pública e o torna importante por isso.  Quando aplica sua própria regra e decide “dar voz aos dois lados”, está determinando quais lados da controvérsia são os relevantes. Ao exercer sua função de cão de guarda e denunciar as transgressões de funcionários públicos, transforma em fato aquilo que é um julgamento moral de valor e, assim, contribui para fixar uma determinada fronteira entre certo e errado. As escolhas do jornalismo, portanto, incidem sobre o mundo social e ajudam a moldá-lo.
Quanto mais plural é o conteúdo da mídia, maior a diversidade de visões de mundo disputando a esfera pública. Trata-se de uma exigência para o funcionamento efetivo do regime democrático. É possível ver nos meios de comunicação de massa uma esfera informal de representação política: já que é impossível que todos intervenham diretamente no debate público, ele é travado no ambiente proporcionado pela mídia por representantes das diferentes posições políticas e interesses sociais. Quanto mais enviesada é esta representação, pior a qualidade da mídia – e da democracia.

Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de diversos livros.
Fonte:Blog da Editora Contexto

FOTO RARA DE UM NAVIO NEGREIRO


LIVRO INDISPENSÁVEL PARA COMPREENDER A HISTÓRIA DO NEGRO NA BAIXADA FLUMINENSE


FLIP - EDIÇÃO 2018



Hilda Hilst ( Homenageada da FLIP - 2018)

Hilda Hilst – Hilda de Almeida Prado Hilst (1930-2004) – escreveu poesia, ficção, teatro e crônica,tendo construído uma obra singular em língua portuguesa na segunda metade do século 20 em torno de temas como o amor, o sexo, a morte, Deus, a finitude das coisas e a transcendência da alma.

Paulista de Jaú, Hilda era filha do casal Bedecilda Vaz Cardoso e Apolônio de Almeida Prado Hilst, cafeicultor filho de imigrantes da Alsácia-Lorena. Seu pai foi diagnosticado com esquizofrenia e internado num sanatório quando Hilda tinha cinco anos.

O interesse pela literatura se deu desde a infância. Era leitora de Samuel Beckett, Friedrich Hölderlin, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, René Char e Saint-John Perse.
Estreou na literatura aos 20 anos com um livro de poesia e foi recebida com entusiasmo por Cecília Meireles e Jorge de Lima, de quem era leitora. Aos 22, formou-se em direito pela Universidade de São Paulo, onde conheceu a escritora Lygia Fagundes Telles, com quem manteve laço duradouro. Após a formatura, viajou pela Grécia,Itália e França.
Contava que, após a leitura de Carta a El Greco, de Nikos Kazantzákis, desejou abandonar tudo para entregar-se em tempo integral ao ofício de escritora, o que a fez deixar a advocacia e uma vida social intensa para viver perto da natureza.
Em 1966, passou a residir na Casa do Sol, uma chácara que construiu em Campinas, no interior de São Paulo, cercada de árvores e bichos, para servir como espaço de estudos e criação artística.
Foi casada com o escultor Dante Casarini e não teve filhos. Distante dos grandes centros,recebia para temporadas breves e longas artistas e escritores como Mora Fuentes e Caio Fernando Abreu.
A obra de Hilda Hilst reúne dezenas de títulos, entre os quais obras-primas como Cantares de perda e predileção (poesia), Rútilo nada (ficção) e A obscena senhora D (ficção).
A sua curiosidade intelectual incluía, além da literatura, a física e a filosofia. Realizou na década de 1970 uma experiência literário-científica que chamou de Transcomunicação Instrumental, quando deixou gravadores ligados para registrar vozes de espíritos. Como marcas de sua personalidade, são apontadas a dedicação obsessiva à escrita, o cultivo da amizade, a irreverência e a curiosidade.
Recebeu prêmios como o Jabuti, o APCA, o Pen Clube São Paulo, o Cassiano Ricardo e está traduzida para o inglês, francês, espanhol, basco, alemão, italiano, norueguês e japonês.Grande parte de seus livros foi publicada pelo célebre editor artesanal Massao Ohno em volumes feitos com apuro estético, mas de reduzida circulação. Após sua morte, a Globo Livros relançou toda a sua obra sob os cuidados do crítico Alcir Pécora e, atualmente, tem em catálogo os títulos Pornô chic e Fico besta quando me entendem, compilação de entrevistas com a autora. A reunião de sua obra poética, Da poesia, foi publicada neste ano pela editora Companhia das Letras, que tem uma série de publicações sobre a autora previstas para 2018, como Da prosa; a adaptação para quadrinhos de A obscena senhora D., por Laura Lannes; uma coletânea ilustrada de suas poesias de amor e a edição de Amavisse para a Poesia de Bolso. Em 2019, a Companhia lançará uma trilogia erótica e, em 2020, a biografia da autora. Daniel Fuentes,o detentor dos direitos autorais, vem negociando com outras editoras para publicar o que falta de Hilda Hilst, como cartas e inéditos. Sua ideia é ter a obra completa disponível nas livrarias até julho de 2018.
Tem crescido o interesse pela literatura de Hilst por parte de leitores, críticos e realizadores do cinema e do teatro: a cada ano, acontecem dez novas montagens em companhias de pequeno e médio porte.
A Casa do Sol funciona hoje como sede do Instituto Hilda Hilst, onde se realizam residências artísticas e encenações de peças de teatro.