sábado, 2 de fevereiro de 2019

DEP. FEDERAL ELEITO JEAN WYLLYS - NÃO ASSUME AO MANDATO POR CAUSA DE AMEAÇAS.

Jean Wyllys, sinônimo de luta e dignidade

Por Brenno Tardelli
Parlamentar anuncia estar fora do país e põe fim ao grande mandato de luta pelos direitos humanos
Sinto-me sinceramente vivendo naquelas mais estereotipadas versões de República das Bananas. Fico imaginando o que Eduardo Galeano diria dos tempos presentes, onde o belo é o desrespeito, o ódio. A lógica parece ser o caos, como nas palavras de meu pai Roberto Tardelli, “os mais perplexos ainda se perguntam se o que estamos vendo corresponde à realidade ou algo maior e mais engenhoso se desenha por trás, em uma necessidade da existência de um plano maior e mais ambicioso, algo genial e ao mesmo tempo simples, que desse um sentido lógico a esse espetáculo delirante que tem sido acompanhar a estreia desse (des)governo”. Do que se vê na classe política dominante, o belo é ser burro, não saber nada de nada.
O belo é vender tudo, dilapidar o que é do Estado para os bilionários ficarem mais bilionários, enquanto salários ficam mais precários, sem bem estar, sem tempo. Parlamentar que vota homegeando torturador confesso é considerado belo. O belo parece ser o Brasil passar vergonha atrás de vergonha. Aqui dentro das fronteiras, é atraso após atraso. A última foi após ser ameaçado, difamado, perseguido por apoiadores e pela própria família Bolsonaro, o deputado federal Jean Wyllys anunciou estar fora do país e abdicou do mandato. Mais uma etapa rumo ao fundo do poço, o qual parece não ter fim, foi vencida. É lamentável e revoltante que o parlamentar tenha passado por isso, bem como tenha que lidar com o baixo nível de pessoas orgulhosas de sua truculência. Deseducadoras, pessoas irresponsáveis que nunca apoiaram qualquer coisa que desse algo ao povo além de armas.

O mandato de Jean Wyllys chega ao fim tendo sido muito rico em histórias. Eu mesmo já tive diferenças quentes em alguns momentos, pelas quais me desculpo no que me excedi, mas, porém, entretanto penso ser o momento de exaltar os laços políticos em comum do que exaltar diferenças. Como o Brasil se tornou um enorme vídeo da Damares, dizer o óbvio: Jean Wyllys sozinho vale mais do que incontáveis parlamentares reacionários que votaram sim naquela pavorosa tarde de impeachment. Parlamentares que votam tempo após tempo por mais desigualdades, que acham belo serem bestiais. Jean representou muita esperança e inspiração, veio do BBB, de identificação com o público que não tem ideia do que é debatido na bolha e poderia ter tranquilamente vivido uma vida sem comprometimento político algum como tantos fazem. Foi um diferencial nas redes sociais e nas gerações que amadureceram vendo-o em lutas épicas no Congresso. Jean aturou muito e teve uma conduta nobre em ambiente de extrema baixaria, sendo apenas um em mais de quinhentos parlamentares, dos quais uma maioria de homofóbicos. Quantas “piadas” sobre gay não devem ter sido feitas. Quantos encontrões. Quantas hostilidades. Muita gente perdeu sua sensibilidade, pois está aplaudindo os valentões do colégio que intimidam por pirraça e que não querem o bem de ninguém, a não ser o deles próprios. Quem vota em pessoas assim precisa se repensar. Jean Wyllys, em seu mandato de oito anos, resistiu dignamente e, ao fazê-lo, inspirou muitos a fazerem o mesmo. Um leão, tanto antes como depois do golpe de estado de 2016. Talvez por isso seja tão detestado pelos valentões, pelos pastores e pelas ovelhas.

E para além do como ele foi enquanto parlamentar, é preciso denunciar a situação política no Brasil. Não é possível que agências internacionais que tanto discutem “democracia” em lugares do mundo como a Venezuela, não questionem o que está acontecendo por aqui nos últimos anos. Quantos sinais de alerta e violações mais vão precisar? Não começou hoje, mas perdemos mais o tempo vendo noticiário falar da democracia na Venezuela do que aqui no Brasil. O impeachment por pedaladas olhado agora soa ainda mais como deboche.

Vale dizer que a partir do momento em que Bolsonaro, presidente, comemora nas redes uma declaração de auto-exílio, enquanto figura pública ele chancela a decisão e transforma o que era “auto” em um exílio consentido e celebrado. Como sempre tem sido, a fala é tida como um “mal entendido”. No país do deboche e da falta de transparência, um presidente pode fazer o impensável e se cobrir de fumaça em seguida. Um ex-capitão do exército que falava bobagens no CQC e não consegue um discurso de mais de cinco minutos e cuja família mostrou ser íntima de miliciano e cuja esposa não consegue explicar um cheque do motorista em sua conta. Esse é o presidente do país. Vergonha maior do que os tempos presentes será difícil de ser superada.

Desejo sorte a Jean Wyllys e que no exílio seja feliz e encontre a paz que muitas vezes deve ter faltado nos últimos anos. Que seu novo caminho seja de brilho e que signifique o despertar de consciência pelos direitos humanos de muitas pessoas que se encontram adormecidas, como também seja gasolina para muitas e muitos que quem resistem em tempos políticos tão brutais.

Brenno Tardelli é editor de justiça na CartaCapital. Foi diretor de redação do Justificando e advogado ativista de direitos humanos.



FANTASMAS ASSOMBRAM A FAMÍLIA BOLSONARO

Presenças fantasmagóricas assombram a família presidencial. Quantas mais vão surgir?

Por Vinicius Segalla
Lista de funcionários fantasmas empregados pelo clã Bolsonaro
É uma tradição familiar. Contratar funcionários – fazendo uso de verbas públicas – que não aparecem no gabinete parlamentar para cumprir suas funções. Trata-se de uma prática que a família Bolsonaro cultiva há muitos anos. A cada dia que passa, mais um profissional contratado por um Bolsonaro surge nos noticiários, em fantasmagóricas aparições, a assombrar o atual presidente da República.
Chegou-se ao ponto de ser difícil manter a conta de quantos funcionários fantasmas já foram revelados até agora, e em qual dos gabinetes da família cada um foi instalado. Segue, abaixo, uma lista do que se conhece até hoje, dia 25 de janeiro de 2019, data de publicação desta reportagem, sem detrimento dos que eventualmente venham a surgir nos próximos dias, semanas, meses e anos.

1 – Wal do Açaí – Gabinete de Jair Bolsonaro

Walderice Santos da Conceição, 49, compunha a equipe de 14 funcionários do gabinete parlamentar do então deputado federal Jair Bolsonaro até agosto do ano passado. Uma senhora humilde, esposa do caseiro da casa de praia de Jair Bolsonaro no município de Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. Nunca nem pisou em Brasília. No horário de expediente na Câmara, dava ponto atrás do balcão da “Wal do Açaí”, sua lojinha de venda do produto.

Primeiro, Bolsonaro disse que Wal era sua consultora na cidade de Angra dos Reis, enviava a seu gabinete as informações sobre as necessidades daquela cidade, para que Jair pudesse propor projetos de lei para ajudar o município.

Mas era mentira, como revelou o jornal Folha de S.Paulo. Descobriu-se que Bolsonaro jamais, em seus quase 30 anos como deputado, jamais criou um só projeto de lei minimamente ligado a Angra dos Reis. Depois, ainda se descobriu que a Wal fazia faxina na casa do Jair, também no horário em que estava empregada lá em Brasília, sendo paga com dinheiro público. Então, ela pediu demissão.

2 – Flávio Bolsonaro – Gabinete de Jair Bolsonaro

A BBC informou: “Entre 2000 e 2002, Flávio Bolsonaro, então com 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes: faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário duas vezes por semana no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília.”

Partindo da hipótese de que o veículo de comunicação que divulgou a notícia, pertencente ao Governo da Grã-Bretanha, não faz parte da imprensa comunista que vive a atacar a família Bolsonaro, apenas uma conclusão é possível: Flávio Bolsonaro foi fantasma de Jair Bolsonaro.

Isso porque, até onde se sabe, Flávio não é onipresente, não poderia ter estado em duas cidades ao mesmo tempo. E, como mostra o órgão de imprensa britânico, são documentos oficiais (declarações do Imposto de Renda, Portal de Transparência da Câmara dos Deputados, Diário Oficial da União e histórico escolar de Flávio) que apontam a presença dupla e simultânea de Flávio Bolsonaro estudanto Direito no Rio e trabalhando com o pai em Brasília.

3 – Tercio Arnaud Tomaz – Gabinete de Carlos Bolsonaro

Ao longo de todo o ano de 2018, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) atestou a presença integral do ex-assessor Tercio Arnaud Tomaz em seu local de trabalho, o gabinete do parlamentar. Salário pago pelo povo carioca: 3.641 reais por mês.

Mas era mentira do Carlos. Conforme mostrou o jornal O Globo, Tomaz era, na realidade, membro da equipe de comunicação e mídias sociais da campanha do então candidato a presidente da República Jair Bolsonaro. E, logo após a eleição, enquanto ainda recebia seus vencimentos às custas do povo do Rio, já passou a se apresentar a jornalistas como assessor de comunicação do Jair. Não fez questão de esconder nada, pelo contrário, passou a divulgar as agendas do presidente eleito, a responder às demandas da imprensa.

Mas o assalto aos cofres públicos cariocas já acabou. Tomaz foi exonerado do cargo, já tem até um novo emprego, conforme publicado no Diário Oficial da União. É agora assessor especial da Presidência da República, nomeado por Jair Messias Bolsonaro, com salário de mais de 13 mil reais por mês.

4 – Wellington Sérvulo Romano da Silva – Gabinete de Flávio Bolsonaro

O Tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro Wellington Sérvulo Romano da Silva foi contratado pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj por um ano e meio: de abril de 2015 a setembro de 2016. Durante todo este período, o contribuinte fluminense pagou fiel e integralmente seus vencimentos mensais, de 5.400 reais, fiando-se no que oficialmente atestava Flávio Bolsonaro, de que se tratava de um profissional assíduo no trabalho.

Ocorre, porém, que em 248 dias deste um ano e meio, o tenente-coronel não foi trabalhar, não estava nem no país, mas sim em Portugal, como informou exibindo provas e documentos o Jornal Nacional.

Se serve de consolo ao pagador de impostos do Rio de Janeiro, Romano da Silva não ficou com a totalidade do dinheiro público que não fez por merecer: ele é um dos funcionários que depositou parte de seus vencimentos na conta de Fabrício Queiroz, aquele outro ex-assessor, que teria contratado milicianos para o gabinete de Flávio, sem que o então deputado soubesse, como ele mesmo (Flávio) já explicou.

5 – Nathalia Queiroz – Gabinete de Jair Bolsonaro

Ao longo do ano de 2018, o gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro atestou oficialmente que a ex-assessora parlamentar Nathalia Queiroz cumpriu religiosamente sua carga horária de trabalho no gabinete do agora presidente da República. Pelos serviços prestados, recebeu o salário mensal de 10 mil reais, pagos pelo contribuinte brasileiro.

Jair Bolsonaro informou à Câmara dos Deputados, segundo mostram documentos exibidos pela CBN, que Nathalia não faltou sequer um dia ao trabalho.

Mas era mentira do agora presidente da República. Durante todo o tempo em que o pagador de impostos brasileiro honrou seu compromisso com a funcionária de Bolsonaro, ela estava, na realidade, trabalhando como personal trainer de celebridades no Rio de Janeiro.

A prova da fraude, quem forneceu, foi a própria Nathalia, em dezenas de fotos e postagens que publicou em suas redes sociais, trabalhando como personal, com seus clientes famosos da televisão.

Nathalia é filha de Fabrício Queiroz, aquele ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro, aquele que depositou 40 mil reais na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Tudo em família.

6 – Renato Antônio Bolsonaro – Gabinete de Antonio Prado

Renato Antônio Bolsonaro, irmão do presidente da República, foi exonerado no dia 7 de abril de 2016 do cargo de assessor especial do deputado estadual André do Prado (PR-SP), após se constatar que ele era funcionário fantasma na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), conforme noticiou o Portal R7.

Bolsonaro era remunerado com um salário de R$ 17 mil mensais, pagos pelo povo paulista, mas trabalhava vendendo móveis na cidade de Miracatu, no interior de São Paulo, enquanto deveria estar na Assembleia. Quando a fraude veio à tona, seu irmão mais famoso falou à imprensa sobre o episódio: “Se meu irmão praticou algum crime, problema dele. Ele que se exploda.”

Ele, não você. Tá ok?

terça-feira, 17 de julho de 2018

O FUTURO DE UM PAÍS PASSA PELA EDUCAÇÃO


FILME CURTA DE GUERRILHA


A pluralidade da mídia e a democracia | Luis Felipe Miguel

por Flávia Biroli
Para compreender a crise da ordem política democrática no Brasil é essencial analisar a posição dos meios de comunicação de massa. Não se trata apenas de estudar seu comportamento, claramente enviesado, ao longo do tempo. Trata-se também de entender o lugar que a mídia ocupa no sistema político brasileiro – e como, deste lugar, ela desempenha o papel de obstáculo permanente ao aprofundamento das práticas democráticas.
Em geral, os modelos com os quais a ciência política trabalha ignoram a mídia ou, no máximo, concedem a ela um estatuto secundário. Admite-se que o funcionamento do regime democrático depende do provimento de uma certa quantidade de “informação”, mas há pouca curiosidade para entender como operam os sistemas que produzem esta informação. Aceita-se o valor da “liberdade de expressão” sem indagar com ela se efetiva. Para algumas vertentes da teoria democrática liberal, a disputa política serve de garantia de que o público terá acesso a relatos contraditórios sobre a realidade, uma vez que cada partido ou grupo de interesse tentará divulgar sua própria versão dos fatos para o maior número possível de pessoas. Assim, os cidadãos teriam condições de construir seus próprios julgamentos a partir de uma pluralidade de pontos de vista (é o que diz Anthony Downs). Para outras, a concorrência mercantil entre os meios de comunicação gera um sistema “autocontrolado”, no qual todos terão incentivos para disponibilizar a informação mais verdadeira e serão punidos, pelos próprios mecanismos de mercado, caso não o façam (como dizia Giovanni Sartori). Mas o desinteresse da ciência política, que considera que a comunicação é um problema desimportante ou que se resolve de maneira automática, contrasta com a preocupação obsessiva que os candidatos à liderança política têm com a gestão de sua visibilidade pública.
O autodiscurso dos próprios meios de comunicação também costuma apresentá-los como externos ao campo político. De maneira geral, o jornalismo – que não é a única, mas é a faceta mais visível da influência da mídia na vida política cotidiana – se coloca como mero reflexo do mundo, um canal neutro pelo qual passam os “fatos” para que o público possa tomar conhecimento deles. Ainda que hoje esteja disseminada a crítica aos ideais canônicos de imparcialidade, neutralidade e objetividade jornalísticas, que primeiranistas de Comunicação já reconhecem como inatingíveis e enganadores, eles continuam centrais na produção da legitimidade da mídia diante do público. Em relação ao sistema político, o discurso ostensivo do jornalismo é a posição de cão de guarda, desvelando as ações dos funcionários do Estado e permitindo que a cidadania os julgue. De acordo com a expressão convencional, ele seria o “quarto poder”, cuja função é controlar os outros três – o que converge com a outra metáfora, já que a forma específica deste controle é dar publicidade aos atos dos governantes, de maneira que o público esteja capacitado a fornecer seu veredito. O jornalismo seria o principal mecanismo para permitir a accountability do sistema político.
Essa narrativa é mítica. A imparcialidade é inacessível, mesmo que seja buscada com sinceridade, uma vez que todos nós vemos o mundo a partir de uma determinada perspectiva – vinculada à nossa posição social, à nossa trajetória e aos interesses aos quais estamos ligados. No momento em que define quais são os fatos que serão noticiados e qual o destaque que cada um receberá, o jornalismo aplica critérios de seleção e de hierarquização que estão longe de ser objetivos (como queria a teoria dos valores-notícia, hoje desacreditada). Mas esses critérios passam a transitar socialmente como universais exatamente porque ganham a visibilidade concedida pela mídia. Quando o jornalismo transforma um fato em notícia, faz com que ele receba atenção pública e o torna importante por isso.  Quando aplica sua própria regra e decide “dar voz aos dois lados”, está determinando quais lados da controvérsia são os relevantes. Ao exercer sua função de cão de guarda e denunciar as transgressões de funcionários públicos, transforma em fato aquilo que é um julgamento moral de valor e, assim, contribui para fixar uma determinada fronteira entre certo e errado. As escolhas do jornalismo, portanto, incidem sobre o mundo social e ajudam a moldá-lo.
Quanto mais plural é o conteúdo da mídia, maior a diversidade de visões de mundo disputando a esfera pública. Trata-se de uma exigência para o funcionamento efetivo do regime democrático. É possível ver nos meios de comunicação de massa uma esfera informal de representação política: já que é impossível que todos intervenham diretamente no debate público, ele é travado no ambiente proporcionado pela mídia por representantes das diferentes posições políticas e interesses sociais. Quanto mais enviesada é esta representação, pior a qualidade da mídia – e da democracia.

Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de diversos livros.
Fonte:Blog da Editora Contexto

FOTO RARA DE UM NAVIO NEGREIRO


LIVRO INDISPENSÁVEL PARA COMPREENDER A HISTÓRIA DO NEGRO NA BAIXADA FLUMINENSE